Três proposições empresariais para a pós pandemia

Três proposições empresariais para a pós pandemia.


Alexandre Cassiano Horta e Luiz Góes (Business Partners da Wave Co.)
De uma forma abrupta e imprevista para a imensa maioria dos países e de suas lideranças, o mundo foi literalmente tomado por uma pandemia, nos submetendo a um genuíno “freio de arrumação”, transformando por completo nossa forma de viver e impondo uma quase paralisia à atividade econômica.


Não sairemos dessa experiência iguais à forma como entramos, isso é seguro para nossas vidas e também válido para os nossos negócios. Muitos de nós estaremos portando cicatrizes e pior que isso, perplexos em relação a como nos comportarmos diante dos desafios desse novo cenário. Transformarmo-nos será a única receita possível para lidar com eles, mas quais as novas competências e recursos requeridos para tanto?


A única certeza existente é: como nada será permanentemente sólido no futuro ambiente empresarial, resta-nos reconfigurar nossos negócios para serem mais adaptativos, mais “líquidos”, de forma a reagir com menos fissuras às constantes mudanças. Mas como isso seria possível?


A primeira proposição seria “leveza = facilidade para reconstruir”. No Japão, acostumado a terremotos, tsunamis e outros complicadores naturais, o templo da Deusa Amaterasu é construído por meio de encaixes e quase exclusivamente de madeira, sendo reconstruído a cada 20 anos, simbolizando a crença sobre a renovação periódica do universo.


Assumir tal simbolismo e nos tornarmos “leves”, exige abdicar daquilo não absolutamente essencial e enxergar negócios não mais encerrados neles mesmos, mas como componentes de um “organismo maior”. A isso denominamos de Circular Business, onde é exigido um maior volume de conexões e colaboração, transformando radicalmente os conceitos de ecossistema e de concorrência (coopetition?) e reformulando constantemente as “fronteiras” dos negócios. Essa forma de agir, pressupõe aceitar uma nova forma de compartilhamento de ideias, de processos ou até mesmo de capacidade produtiva, alterando definitivamente o modelo do negócio. Seja se transformando em um integrador ao invés de um produtor, ou passando a trabalhar com parceiros em um ecossistema aberto, com vistas a inovar mais aceleradamente, ou mesmo convertendo-se em uma plataforma, que integra fornecedores com consumidores. É bem possível que, desta forma, os conceitos que definem os ativos de uma empresa venham a ser redefinidos dentro de um contexto mais amplo que contemple o compartilhamento.


A segunda proposição é “em novos tempos, não se pode prescindir de larga experiência”. Apesar da afirmação parecer contraditória, não há nada mais eficiente para planejar passos futuros em momentos de crise, do que a experiência de ter falhado (uma e algumas vezes) e ter-se reerguido. Isso expande nossa acuidade sobre aqueles pequenos detalhes que escapam aos excessivamente otimistas no momento da formulação de seus planos. E, por um acaso, o Brasil, pródigo em crises (particularmente entre o final dos anos 70 até os anos 90), treinou inúmeros executivos em como planejar e executar diante de cenários incertos e de crises profundas. Não à toa, grandes multinacionais, exigiam que os candidatos aos seus principais postos, passassem temporadas em nosso país para aprimorar sua capacidade de lidar com ambientes de grande incerteza.


E nesse exato momento, um grande número de novas empresas, formadas por empresários e profissionais muito jovens, forjadas principalmente pelo conhecimento de um novo ferramental tecnológico e novas formas de acessar o mercado, não possuem, dentro de casa, essa “dose de experiência” necessária para “lamber as feridas e repensar a forma de agir”, superando o impacto dessa nova crise.


Nos referindo àquilo que foi discutido anteriormente, essa dose de experiência e aconselhamento, disponível em profissionais mais experimentados, pode ser incorporada de forma mais aberta, por meio de conselhos consultivos ou pela participação destes em projetos específicos por tempo determinado. O Brasil, que por muito tempo dispensou a experiência de profissionais de mais idade, como forma de dar espaço a uma população que crescia com velocidade e que trazia jovens ao mercado de trabalho em grande volume, tem a oportunidade de se aproveitar dessa “matéria prima disponível” para suprir as carências existentes nas estruturas dessas empresas.


A terceira e última proposição é “Oxigênio”. Sem querer fazer uma analogia funesta com uma doença que ataca particularmente as funções respiratórias dos infectados, todas as empresas sairão desse período de isolamento mais ou menos “machucadas” em relação ao seu caixa e garantir recursos financeiros adicionais será o oxigênio necessário para dar fôlego ao período de reformulação dos negócios e recuperação de sua saúde.


As formas tradicionais às que as empresas recorriam em períodos de necessidade adicional de recursos, talvez não sejam suficientes ou estejam disponíveis para esse período de travessia. Infelizmente, bancos e financiadores tradicionais reagem mal aos períodos de crise e incerteza, reduzindo sua predisposição de aceitar riscos, “puxando o freio” nas concessões de crédito e gerando falta de liquidez, justamente nos momentos em que isso se faz mais necessário.


As empresas, portanto, terão que estar abertas a repensar sua estrutura de capital, incorporando eventualmente novos sócios, estratégicos ou financeiros, como alternativa para dispor da “quantidade de oxigênio necessário” e passando a enxergar a função financeira de uma forma mais estratégica, preparando-se para acessar o mercado de capitais, amadurecendo obrigatoriamente em suas regras de governança,  e se tornando compatível a esse novo e mais exigente ambiente de negócios.


Leveza, Experiência e Oxigênio serão recursos essenciais não apenas para a retomada, como também no redesenho de todos os processos, relacionamentos e crenças no ambiente corporativo, tenha este a dimensão que tiver. As empresas pequenas e médias, certamente terão maior facilidade em assumir e processar as mudanças necessárias. As maiores deverão sofrer um pouco mais dada à complexidade de suas estruturas e cultura organizacional, concebidas muitas vezes em nome da segurança e da manutenção do domínio de mercados.


Em geral, períodos de crises forçam as empresas a assumir posturas não triviais fazendo com que aquelas que se mostrarem mais abertas e criativas em busca de novas soluções serão as mesmas que emergirão com muito mais força e probabilidade de sucesso. Mudar é essencial. O Mundo assume, a partir de agora, um novo formato inédito ao longo de sua história.

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